RESENHA
Livro Resenhado: Freire, Paulo. Educação e Mudança. São Paulo: Paz e Terra, 2008.
Autora da Resenha: Ana Maria Menezes

O livro “Educação e Mudança”, publicado pela primeira vez em 1979, faz parte de longa biografia escrita pelo célebre educador brasileiro, Paulo Freire. Paulo Freire nascido em Recife em 1921, é conhecido por seu método de alfabetização de adultos que defende a humanização dos homens por meio da conscientização. Este seria o maior objetivo da educação, desenvolver o pensamento crítico dos alunos para que eles possam lutar por sua própria libertação.
“Educação e mudança” foi lançado no momento em que Paulo Freire, retorna do exílio após 15 anos longe das terras brasileiras. Longe de exprimir mágoa em suas palavras, segundo prefácio de Moacir Gadotti, os escritos de Freire exalam esperança e otimismo.
O título delimita com clareza o propósito do autor em afirmar que a educação pode sim operar mudanças. Baseando-se em sua proposta de uma pedagogia crítica, o autor, em quatro capítulos, descreve o compromisso do educador em promover uma pedagogia que possibilite mudanças.
Paulo Freire, inicia seu livro, no capítulo 1 “O compromisso do profissional com a sociedade” afirmando que para poder assumir um ato de comprometimento, a primeira condição está na capacidade de agir e refletir. O homem só existe por meio da ação e reflexão e isso só se dá na relação do homem com o mundo onde vive. A questão é, se a realidade dificulta movimentos de ação e reflexão , como transformá-la para que os homens possam verdadeiramente pensar e agir?
O compromisso do profissional está relacionado ao seu compromisso como homem situado em um contexto histórico-social. Se seu compromisso como homem não pode fugir de seu compromisso com o mundo e com os homens na busca da humanização, seu compromisso profissional é também uma dívida. O autor afirma que quanto mais nos capacitamos como profissionais, mais aumenta nossa responsabilidade com os homens.
Paulo Freire encerra o primeiro capítulo pontuando a grande sombra ameaçando o compromisso verdadeiro: a alienação cultural que sofre nossa sociedade. Essa alienação é característica de sociedades-objetos que estão a mercê das sociedades-matrizes, detentoras das decisões econômicas e culturais. Ao importarmos técnicas e tecnologias de outros países, simultaneamente importamos uma cultura alheia à nossa. Acabamos sendo “seres para o outro”; homens que vivem ingenuamente, almejando a vida do outro, repetindo e nunca criando.
No capítulo 2 “A educação e o processo de mudança social”, inicia dizendo que é impossível refletir sobre educação sem refletir sobre o homem. Qual seria o núcleo fundamental do homem onde se sustenta do processo de educação? Segundo o autor, o homem se sabe inacabado e por conseguinte busca educar-se. É um ser em busca constante de ser mais. Freire afirma que o homem deve ser sujeito de sua própria educação e não objeto. “Por isso, ninguém educa ninguém”. Esta não deve ser uma busca isolada mas ao lado de outros seres.
O autor enfatiza a importância do amor e respeito na educação. “Como todo saber tem em si o testemunho do novo saber que já anuncia sua superação”, nunca podemos nos colocar como superiores ensinando a ignorantes. Assim como existem diferentes graus de educação, podemos afirmar também que não existem ignorantes absolutos. Todos somos sábios em relação a algo e ignorantes em relação a outro. O saber é sempre relativo.
Educação também implica em esperança; esperança de liberdade e de mudança. Para auxiliar a compreensão de sua proposta, Paulo Freire, fala sobre a transição em nossa sociedade, dizendo que “temos que saber o que fomos, o que somos, para sabermos o que seremos”. É preciso partirmos de nossa possibilidades para sermos nós mesmos.
Paulo Freire também nos alerta sobre o conceito de consciência bancária de educação onde o professor julga-se superior , transmitindo conhecimento, e o educando é o depósito desse saber. O professor arquiva conhecimento porque não o concebe como busca. Exemplo de um modelo de educação onde o respeito pelo conhecimento do outro não existe e onde enfatiza-se a consciência ingênua. Para que haja uma mudança de consciência, é necessário um processo educativo de conscientização.
No capitulo 3, Paulo Freire, fala sobre “O papel do trabalhador social no processo de mudança”. O autor afirma que na ingenuidade só olhamos a realidade e não podemos adentrar o que é olhado. O papel do educador está em estimular o “admirar”, ou seja, olhar de dentro e de dentro aquilo que nos faz ver.
Para desempenhar este papel, o trabalhador social não pode assumir uma posição neutra, ele tem que fazer sua opção. Esta posição irá determinar seu papel, seus métodos e suas ações. O trabalhador social não considera a mudança uma ameaça porque acredita que para ser um homem, é primordial que os outros também o sejam. Ele trabalha para a mudança de todos.
Por meio da educação, o trabalhador social problematiza a realidade dos homens, proporcionando assim a desmistificação de uma realidade até então mitificada. Enfim, a tarefa fundamental do trabalhador social é de auxiliar para que os homens sejam sujeitos e não objetos da transformação.
O capitulo 4 é dedicado ao tema “Alfabetização de adultos e conscientização”. Freire afirma que se a vocação do homem é ser sujeito e não objeto, ele só poderá desenvolver tal vocação por meio da reflexão e do olhar critico sobre sua realidade. Educação seria uma tentativa para chegar ao homem-sujeito, ajudando o homem a organizar seu pensamento reflexivamente.
E como?
Freire, propõe um método ativo, dialógico e critico, uma modificação do conteúdo programático da educação e o uso de técnicas como a redução e a codificação .
Para tal, a alfabetização é muito mais que o domínio mecânico de técnicas para ler e escrever, é também entender o que se lê e escrever o que se entende, enfim, é comunicar-se graficamente. Por todos esses motivos, Freire afirma que a alfabetização não pode se fazer de cima pra baixo, mas de dentro para fora partindo do educando e sendo ajustado e mediado pelo professor.
Considerando que a educação deve partir do universo do educando, Paulo Freire fala sobre o levantamento vocabular dentro da realidade daqueles que seriam educados. Tal levantamento, trouxe ao conhecimento do autor, palavras geradoras, ou seja, vocábulos mais carregados de certa emoção, pelas palavras típicas do povo. Selecionadas as palavras geradoras, criam-se situações nas quais são colocadas as palavras geradoras em ordem crescente de dificuldades fonéticas.
O ponto crucial na proposta de Freire, segundo o mesmo autor, é a preparação dos coordenadores e supervisores. O desafio está em criar uma nova atitude de diálogo para que possibilite-se a educação e não a domesticação.
A meu ver, a obra de Paulo Freire é atual mesmo tendo sido publicada em 1979. Acredito que num mundo onde mais e mais parecemos construir uma cultura padronizada pelo modelo do que vem de fora, é muito relevante o chamamento de Freire para que o educador saia de sua posição ingênua e busque para si como profissional social e para seus educandos construir um ambiente de amor e respeito condizentes à busca da humanização.
Em relação a sua proposta de alfabetização, considerando os dias atuais, temos mais um agravante que é a inclusão digital do povo brasileiro. Além de todos terem direito à ler e escrever , hoje faz-se necessário também saber decodificar uma nova linguagem dos meios virtuais. Assim como a alfabetização proposta por Freire, a inclusão digital deve ser criteriosa e propiciar aos educandos a oportunidade de uma leitura crítica das tecnologias e novos comportamentos que adotamos. Assim como não há técnicas que sejam neutras, acredito que o mesmo pode ser dito em relação a tecnologias adotadas nos dias atuais.